quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

A evolução da dramaturgia infantil do SBT

Ninguém faz novelas no Brasil com a qualidade da Rede Globo. Isso é um fato incontestável. Nas outras emissoras, o que vemos é alguns acertos periódicos, mas nada que supere a forma como a emissora carioca conduz a sua teledramaturgia. Porém nos últimos cinco anos, é notável que a Record e o SBT mantêm um certo estilo de suas tramas, que têm atraído bons públicos e boas audiências. Enquanto a primeira tem tido bons resultados com suas tramas bíblicas, o canal de Silvio Santos tem se especializado nos folhetins voltados para as crianças. E atualmente, a novela inédita em cartaz, Cúmplices de um Resgate, tem consolidado a evolução do investimento do canal nesse segmento.

A versão brasileira da trama mexicana Complices Al Rescate (2002), estreou no SBT no dia 3 de Agosto de 2015. Com 143 capítulos exibidos até agora, Cúmplices de um Resgate é o terceiro folhetim dessa fase infantil do canal de Osasco, trazendo consigo os sucessos Carrossel (2012/2013) e Chiquititas (2013/2015), todos assinados por Íris Abravanel, esposa de Silvio Santos, junto a um time de colaboradores. Cúmplices…, por exemplo, é escrita também por Carlos Marques, Fany Miguera, Grace Iwashita, Gustavo Braga e Marcela Arantes, com supervisão de Rita Valente.
A protagonista mirim Larissa Manoela ao lado da autora Íris Abravanel. Foto: Manuela Scarpa/Foto Rio News/Reprodução

Ao assistir com atenção ao capítulo 142, pude perceber na novelinha algumas características bem interessantes. Primeiramente, a agilidade da edição conciliada perfeitamente com a computação gráfica que permeia todo o episódio. O que era um excesso em Chiquititas, em Cúmplices… os efeitos visuais são necessários para dar, principalmente, o ar de modernidade com que a trama foi adaptada para os dias atuais, em que redes sociais e emoticons estão mais do que presentes no cotidiano da criançada.

Os cenários internos e externos de Cúmplices… também chamam a atenção pelo capricho e qualidade. Enquanto a cenografia em Carrossel era mais modesta, já que naquela época era uma aposta, a coisa foi melhorando em Chiquititas, refletindo numa maior produção na trama atual, protagonizada duplamente (ou seria quadruplicadamente?) pela pequena Larissa Manoela. Aliás, vale frisar que a jovem atriz que conquistou o Brasil com sua Maria Joaquina de Carrossel tem levado as gêmeas Manuela e Isabela com muita competência.

Na busca de trazer a novela para a época atual, e sendo uma novela infantil, achei bem ousado de Íris Abravanel colocar um núcleo em Cúmplices… para falar de religiosidade, já que no vilarejo há um Padre Lutero (Edson Montenegro) e um Pastor Augusto (Augusto Garcia), que vivem em pé de guerra (a nível de uma trama para crianças, claro). O casal adulto protagonista, interpretados por Juliana Baroni (Rebeca) e Duda Nagle (Otávio), convencem pela simpatia e sintonia, ao passo que a teatralidade exagerada da síndica-vilã-maluca-e-atrapalhada Meire Borba Gato (Valéria Sândalo) chega a incomodar um pouco.
Casal protagonista adulto, formado pelos atores Duda Nagle e Juliana Baroni, convence e demonstra sintonia. Foto: Divulgação/SBT.

Com uma trama leve, em que cachorro, gato e rato falam (e são mais inteligentes que os personagens humanos), nem mesmo as vilãs bem vividas pelas atrizes Maria Pinna (Regina Junqueira) e Dani Moreno (Safira Meneses) ofuscam o colorido desta história musical, que conta a vida das irmãs gêmeas que, separadas ao nascer, trocam de lugar, de vida, mas compartilham em comum o amor pela música.

O SBT já está pré-produzindo a sucessora de Cúmplices de um Resgate. O remake mexicano dessa vez será Carinha de Anjo (2000/2001). Quando entrará no ar? Ninguém sabe. E eis então o maior problema das novelas infantis da Senhora Silvio Santos: elas tem dia para começar, mas não para terminar. O jeito é aguardar. Enquanto isso, as crianças agradecem.